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terça-feira, 27 de março de 2012

MÉTODOS DE INTERPRETAÇÃO DE APOCALIPSE

MÉTODOS DE INTERPRETAÇÃO DE APOCALIPSE

Caros leitores, com o fito de subsidiar o estudo do Livro de Apocalipse, o qual será tema deste trimestre, postarei algumas formas de interpretá-lo. Para tanto usarei as argumentações Teológicas de George Eldon Ladd, autor do livro, Teologia do Novo Testamento, Editora Hagnos, São Paulo, SP 2003.

INTRODUÇÃO
O livro de Apocalipse é uma revelação dos eventos que ocorrerão no fim dos tempos e no estabelecimento do Reino de Deus. A teologia básica do livro, portanto, é sua escatologia. Ele declara ser uma profecia das “coisas que brevemente devem acontecer” (1.2-3), cujo evento central é a segunda vinda do Senhor Jesus Cristo (1.7). 

Contudo, a interpretação desse livro é a mais difícil de todos os livros do Novo Testamento. Ao longo da história da interpretação, várias abordagens distintas emergiram. Entretanto, o interprete deve se familiarizar com esses métodos ou visões de interpretação, e criticar e purificar sua própria opinião.

O CONTEÚDO DO APOCALIPSE
Visto que o livro deve ser interpretado como um todo, devemos ter em mente um esboço de seu conteúdo. O esquema abaixo baseia-se na estrutura literária do livro, indicada pela expressão “em espírito” (1.10; 4.1-2; 17.3; 21.10). 

A primeira visão (1.9-3.22) consiste no Cristo exaltado e suas cartas às sete igrejas. Cristo é visto em pé, em meio a sete castiçais de ouro (1.12 e SS.), simbolizando sua superintendência na sua igreja na terra. As cartas às sete igrejas (2-3) são sete cartas reais a sete igrejas na Ásia Menor. O fato de que existam outras igrejas na Ásia nessa época, sugere que sete delas foram escolhidas para representar toda a igreja. Nas cartas está a mensagem de Cristo para a sua Igreja em todos os tempos. 


 A segunda visão (4.1-16.21) retrata o trono celestial com um livro selado com sete selos na mão de Deus. O qual só pode ser aberto pelo Leão da Tribo de Judá, que é o Cordeiro de Deus sacrificado (4.1-11). Mas, vive eternamente! Segue-se uma série tripla de sete eventos: a abertura dos sete selos (5.1-8.1), o toque das sete trombetas (8.2-9.21) e o esvaziamento das sete taças (15.1-16.21). Cada selo, cada trombeta e cada taça é seguido por uma representação simbólica de algo que acontece na terra. Antes do soar das sete trombetas, duas multidões são vistas: A primeira, constituída por 12.000 pessoas das doze tribos de Israel é selada na testa (7.3), para não ser atingidas pelas pragas das trombetas (9.4). A segunda multidão é um corpo inumerável de redimidos de todas as raças da humanidade (7.9-17), que “vieram da grande tribulação” (7.14). 


Um tema central nessa segunda visão é o conflito entre Deus e Satanás, que está retratado em cores mitológicas, como um grande e feroz dragão vermelho (12.3-4). O dragão é frustrado em seus esforços de destruir o Messias (12.5), e, após ser derrotado na batalha com Miguel e os anjos (12.7 e SS.), dedica seus esforços à destruição da igreja na terra (12.17). Em busca desse propósito, o dragão chama duas bestas (12.17-13.1; 13.11), que blasfemam contra Deus (13.6), desviam o coração dos homens de Deus (13.4, 14) e perseguem a Igreja (13.7, 15). Essa besta e seu falso profeta (19.20) têm permissão para obter êxito em seu propósito, e procuram impor seu governo sobre todos os homens (13.7, 8, 16, 17). 


A terceira Visão (17.1-21.8) é a grande prostituta, Babilônia (17.1-5), a grande cidade, que tem domínio sobre todos os reis da terra (17.18). O julgamento e destruição da Babilônia são então anunciados e retratados (18.1-24), seguido por um hino de louvor por sua destruição (19.1-5). O estante da terceira visão retrata a vitória final de Deus sobre os poderes do mal. Primeiramente vem um hino de louvor, celebrando o casamento do Cordeiro e de sua Noiva (19.6-10). Essa celebrar é seguido pelas cenas do Cristo vencedor cavalgando em direção ao julgamento e à vitória (19.11-16), a vitória sobre a besta e do falso profeta (19.17-21). A seguir vem a vitória sobre o dragão, este é preso no abismo por mil anos (20.1-3), ao passo que Cristo e seus santos e mártires que “reviveram” reinem sobre a terra (20. 4-6). Isto é chamado de a “primeira ressurreição” (20.5). Ao fim desse reino intermediário, Satanás (o dragão) é liberto da prisão, e uma vez mais engana as nações, incitando-as a lutar contra os santos (20.9). Satanás é lançado no lago de fogo, onde já estavam a besta e o falso profeta (20.10). A seguir temos a segunda ressurreição,  o juízo final (20.11-15), e a vinda do novo céu e da nova terra para ocupar o lugar dos antigos (21.1-8), em que os redimidos gozam de comunhão aperfeiçoada com Deus (21.3-4). 


Uma visão final retrata a Jerusalém celestial (21.9-22.5). O livro termina com um epílogo (22.6-21), convidando os homens a receber a dádiva da vida por parte de Deus (22.17).

MÉTODOS DE INTERPRETAÇÃO


1. INTERPRETAÇÃO PASSADISTA OU PRETERISTA
A interpretação predominante do Apocalipse na erudição crítica trata o livro como um típico exemplo do gênero de literatura apocalíptica, e o interpreta do mesmo modo que o Apocalipse de Enoque, Assunção de Moisés, 4 Esdras e Baruque são interpretados. Apocalipse são “orientações para tempos difíceis”. Aparecem em tempos de perseguição e males incomuns. O povo de Deus não pode entender o problema do mal da história ou porque tais sofrimentos e terríveis perseguições recaem sobre eles. 

Os apocalipses foram escritos para responderem a essa questão e para encorajar um povo em aflição. A solução é encontrada na opinião de que Deus entregou este século aos poderes do mal, mas breve intervirá para destruir o mal e estabelecer o seu Reino. A mensagem dos apocalipses é dirigida aos seus próprios contemporâneos e, de modo algum, contém profecias do futuro, mas pseudoprofecias da história, reescritas como profecias. Todas as alusões a eventos históricos ou a personagens devem ser procuradas no ambiente histórico do próprio livro.

Essa interpretação supõe que o Apocalipse foi produzido por uma igreja que estava enfrentando a ameaça de uma terrível perseguição por parte de Roma, talvez na província da Ásia, onde o culto ao imperador florescia. Logo, a besta é um dos imperadores romanos, e o falso profeta é o culto de adoração ao imperador. O autor assegura aos cristãos, que mesmo que aconteça um grande martírio, Cristo retornará brevemente, destruirá Roma e estabelecerá o seu Reino na Terra.

Deve haver um elemento de verdade nessa abordagem, pois certamente o Apocalipse pretendia falar a sua própria geração. Mas, para a interpretação passadista, o Apocalipse não é uma profecia mais verdadeira do que seu apocalipse contemporâneo, 4 Esdras. Há contudo, algumas diferenças entre o Apocalipse e os apocalipses judaicos, a mais importante das quais é a sua consciência de estar dentro da corrente da história da redenção, o que falta aos apocalípticos judaicos. Portanto, embora possamos reconhecer as sombras dos eventos contemporâneos no Apocalipse, temos que concluir que o simbolismo elaborado da literatura apocalíptica judaica foi empregada nos interesses de uma previsão profética da consumação do propósito da redenção por parte de Deus.   


2. MÉTODO HISTÓRICO OU HISTORISTA
Essa interpretação que é aceita pelos reformadores, vê no Apocalipse uma profecia da história da igreja. Busca-se na história da igreja eventos específicos, nações e personagens que se enquadrem nos selos, nas trombetas, nas taças, etc. A mais importante identificação nessa interpretação é a da besta e do falso profeta com o papado em seus aspectos políticos e religiosos. Esse método pode ser: milenarista, não-milenarista ou pós-milenarista. A grande dificuldade com esse ponto de vista é que não há nenhum consenso quanto à verdadeira natureza do delineamento da história prevista no Apocalipse.

2. MÉTODO SIMBÓLICO OU ESPIRITUALISTA, OU AINDA IDEALISTA
Este método vê no Apocalipse apenas símbolos dos poderes espirituais atuando no mundo. A mensagem do livro é a garantia aos santos sofredores do triunfo final de Deus, sem a predicação de eventos concretos, nem no passado e nem no futuro. A objeção a essa perspectiva é que o gênero da literatura apocalíptica sempre usava o simbolismo apocalíptico para descrever os eventos da história; e temos de esperar que o Apocalipse compartilhe pelos menos dessa característica com os outros livros com esse mesmo caráter.

4. A INTERPRETAÇÃO FUTURISTA EXTREMA
O Dispensacionalismo. Um ponto de vista que se tornou profundamente arraigado em muitas igrejas evangélicas americanas, interpreta o Apocalipse em termos de sua premissa dispensacionalista de dois planos divinos diferentes: um para Israel e outro para a Igreja. Todos os selos, as taças, as trombetas pertencem à grande tribulação; e, visto que este é o tempo de “angustia para Jacó” (Jr. 30.7), por definição, está relacionado a Israel, e não à Igreja. Nos capítulos 2 e 3, a igreja é vista na terra, porém o termo “igreja” não mais é ocorre no livro, exceto em 22.16. Os vinte e quatro anciãos, vistos ao redor do trono de Deus, são considerados como a igreja, arrebatada e galardoada (4.4). Logo, o arrebatamento da igreja deve ocorrer em (4.1); e o povo de Deus na terra são os judeus, doze mil de cada uma das doze tribos (7.1-8), que proclamam o “evangelho do Reino” durante a tribulação, e ganham um grande número de gentios (7.9-17). 

A besta é o chefe do Império Romano, que será restaurado nos últimos dias. A profecia de Daniel 9.27, também é entendida como se referindo ao chefe desse império restaurado. Os últimos sete anos começarão com um pacto entre a besta (o anticristo) e Israel, o qual a besta romperá após três anos e meio e, desse modo enfurecida, perseguirá os judeus. O grande conflito no Apocalipse se dará entre o anticristo e Israel, e não entre o anticristo e a Igreja, visto que os capítulos 4 a 19 se referem ao período de tribulação, somente os capítulos 2 e 3 se referem à igreja e à era da igreja. A opinião usual é que as sete igrejas representam sete períodos sucessivos da história da igreja, e que o período final será o da apostasia e da apatia espiritual. Essa opinião, contudo, foi substituída por teólogos dispensacionalistas contemporâneos.

5. A INTERPRETAÇÃO FUTURISTA MODERADA
O Apocalipse afirma apresentar o propósito redentor de Deus, contendo tanto o juízo como a salvação. Um dos principais problemas na interpretação desse livro é a relação entre os selos, as trombetas e as taças. A chave para interpretação do livro pode estar na solução desse problema. João vê o livro na mão de Deus, em forma de um pergaminho, selado com sete selos ao longo de sua borda externa. Não foi encontrado nenhuma criatura capaz de retirar os selos e abrir o livro, exceto o Leão da Tribo de Judá, que era o Cordeiro sacrificado. Isso acentua a nota principal do livro. O Leão vencedor, que é capaz de revelar os propósitos ocultos de Deus, é o Jesus que morreu na cruz.

O pequeno livro esta na forma de um testamento antigo, que era usualmente selados com os selos das sete testemunhas. O livro contém a herança de Deus para seu povo,  que está fundamentada na morte de seu Filho. A herança dos santos é o Reino de Deus; mas as bençãos do Reino de Deus não podem ser concedidas sem a destruição do mal. De fato, a destruição de todos os poderes do mal é uma das bênçãos do governo real de Deus. Eis aqui o duplo tema de Apocalipse: O julgamento do maligno e a vinda do Reino.

A abertura sucessiva dos selos não faz com que o livro seja aberto gradualmente. Seu conteúdo não pode ser revelado até que o ultimo selo seja retirado. Contudo, quando cada selo é aberto, algo acontece. Após o primeiro selo, a conquista domina a terra; após o segundo, a guerra, a fome a morte e o martírio. O sexto selo nos trás o fim do século e a vinda do grande Dia do Senhor e a ira do Cordeiro (6.16-17). Isso sugere que os eventos que sucedem por ocasião da abertura dos selos não constituem um fim em si, mas eventos que levam ao fim. Esta estrutura encontra paralelo em Mateus 24, em que guerras, fomes e outros males não são senão "o princípio das dores", e não o próprio fim (Mt 24.8). Além disso, o cavalo branco vencedor tem paralelo em Mateus 24.14, e retrata as vitórias a serem alcançadas pela pregação do Evangelho no mundo. 

Muitos comentaristas pensam que os quatro cavaleiros devem ser semelhante em tipo, e que o cavalo branco, portanto, representa algum poder maligno. Contudo, nenhuma dor é mencionada como acontece com os outros cavaleiros, e o branco, no Apocalipse, é sempre associado a Cristo ou a vitória espiritual.¹³ Pensar que a pregação do Evangelho é associada às pragas, não é aqui mais incongruente do que em Mateus 24.1-4. Não é uma objeção afetiva dizer que o Evangelho nesta ordem presente nunca obterá triunfo. Isto é verdadeiro; mas o Evangelho obtém vitórias. Tanto a espada (Hb. 4.12; Ap. 2.12) como o arco (Is. 49.2-3) são símbolos de Deus operando entre os homens. Na abertura dos cinco selos são reveladas as medidas que Deus toma diante do fim para liderar a plenitude da salvação e o juízo: A pregação do Evangelho e os males da guerra, da morte, da fome e do martírio. Essas são como antecipações da salvação consumada e do juízo que estão contidos no livro selado.

O sexto selo nos trás o fim; porém com a abertura do sétimo selo, quando o próprio livro pode ser aberto e seu conteúdo revelado, nada acontece (8.1). Não há nenhuma dor. Embora isso esteja de acordo com a flexibilidade do simbolismo apocalíptico, de que o livro real desaparece de vista e seu conteúdo não é nunca explicitamente mencionado, o fato de não se dar nenhum conteúdo específico ao sétimo selo, sugere que tudo o que se segue, começando com as sete trombetas, constitui o conteúdo do livro. Aqui, então, começa a revelação real dos eventos judiciais e redentores que constituem a consumação.

Podemos concluir que uma interpretação futurista moderna, entende as sete cartas como endereçada a sete igrejas históricas, que são representativas da igreja inteira. Os selos representam forças na história, qualquer que seja a sua duração, pela quais Deus elabora seus propósitos de redenção e julgamentos na história, conduzindo-a ao fim. Os eventos que começam com o capítulo 7 estão no futuro, e cumprirão a disposição final da vontade divina para a história humana.

Referência
LADD, Eldon George. Teologia do Novo Testamento. ed.rev. São Paulo: Hagnos, 2003, pp.826 a 831.

3 comentários:

  1. OLÁ MISSIONÁRIO DC. ALAN FÁBIANO A PAZ DO SENHOR: Olha Gostei desse comentário ou seja dos metodos de interpretação do apocalipse
    esses metodos merecem ser observados mas a ultima interpreetação nº5 não entendi, gostária de uma explicação se for possivel que DEUS EM CRISTO VOS ABENÇOE.
    1. INTERPRETAÇÃO PASSADISTA;
    2. MÉTODO HISTÓRICO;
    3. MÉTODO SIMBÓLICO OU IDEALISTA;
    4. A INTERPRETAÇÃO FUTURISTA EXTREMA;
    5. A INTERPRETAÇÃO FUTURISTA MODERADA.

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    1. Caro irmão Jailson Gomes, a paz do Senhor,
      No intuito de esclarecer, há várias visões acerca do Apocalipse (e literaturas apocalípticas, ex.: Dn, Ez e Zc), sendo:
      1ª) Preterista: Tudo se cumpriu no 1º século da igreja cristã;
      2ª) Histórica: O Ap está a se cumpri no decorrer da história;
      3ª) Idealista-Simbólica: Nada é literal neste livro, e deve ser interpretado de forma simbólica.
      4ª) Futurista Moderada: A partir do Capítulo 4.1 de Ap tudo esta reservado para o futuro (Volta de Cristo, Bodas do Cordeiro, Grande Tribulação, Milênio, Juízo Final, etc.).
      5ª) Futurista Extremada: Estes além de interpretarem os acontecimentos a partir do 4º cap. como acontecimentos futuros, entendem que as cartas para as sete igrejas além de atenderem as igrejas da ásia menor daqueles dias (atual Turquia), são uma profecia que aponta sete estágios da Igreja Cristã (alguns associam as sete cartas/estágios com as sete parábolas de Mt 13); é neste ponto das cartas que os futuristas moderados (Cap. 2-3: passado), diferem dos futuristas extremados (Cap. 2-3: as cartas, são tanto passado, igrejas locais do 1º Séc., como futuro, fases/estágios do Cristianismo).
      Abraços,
      Paulo César Heidt.

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  2. É isso ai meu caro irmão! Vamos trabalhar para o mestre! Deus te abençoe sempre mais e mais!

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